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19 de Abril de 2016

Protagonista da moda brasileira dos últimos 30 anos, Giovanni Frasson fala da criação e do mercado de ontem e de hoje

Giovanni Frasson faz parte da história da moda brasileira. Mais do que isso, ajudou a construí-la ao longo das últimas três décadas, a maior parte delas à frente da edição e depois da direção de moda da “Vogue Brasil”, produzindo editoriais que traduziram os desejos de moda e criações dos principais profissionais da área em cada época, da extinta Yes, Brazil! aos atuais grandes estilistas, revelados desde o começo de suas carreiras, como Alexandre Herchcovitch, Reinaldo Lourenço e Gloria Coelho. Ao assinar campanhas de moda e desfiles para marcas como Zoomp, Rosa Chá e Colcci, também contribuiu para a formação da imagem dessas grifes importantes para a evolução do mercado no País.

Aos 53 anos, o diretor criativo que iniciou a profissão como assistente na revista “Nova” e depois “Moda Brasil” e deixou a “Vogue” depois de 27 anos para seguir carreira solo em consultorias para marcas como Bobstore e Vivaz e revistas como a “Vogue México” e “Vogue Latino América”, acaba de lançar retrospectiva de sua carreira no livro “Dez Mil Novecentos e Cinquenta Dias de Moda” (editora Luste).

Em entrevista ao FFW, ele fala da nova publicação, da mudança do mercado fashion nacional ao longo de 30 anos, da influência do Instagram e do novo timing da moda.

Ao folhear o seu livro, percebi a evolução da moda brasileira ao longo de 30 anos, por meio daquelas imagens que mostram desde a mudança de padrão de beleza das modelos, de atitude de moda, de luz, de foto, e claro, do styling das roupas.
Essa era exatamente a ideia: mostrar a evolução da modelo, da moda, da fotografia, das ideias, das artes plásticas ou não plásticas, a sensualidade, a sexualidade, a mulher, as mudanças tecnológicas. O interessante é que nesse livro você percebe várias inovações e novidades que foram surgindo ao longo desses anos. Desde uma capa feita por fusão de imagens, trabalhos com interferências de artistas plásticos ou simplesmente um trabalho feito em cima da arte final. A primeira imagem photoshopada. A primeira imagem tratada na Casa do Vaticano (primeira casa de tratamento), depois a evolução para os tratadores de imagem em si. Qualidade de impressão, princípios de luz: tem de tudo no livro para ser estudado. Entregamos 600 cópias – 20% da tiragem – ao Ministério da Cultura, que as distribuirá em instituições de ensino.

A primeira imagem do livro, que inicia o capítulo das imagens  de moda que você produziu entre 1985 e 1994, tem uma estética muito simbólica dos anos 80. Foi o primeiro editorial que você assinou?
Quando entrei na revista “Moda Brasil”, fiz alguns trabalhos de assistente e esse foi um dos mais significativos. É um editorial de 1987, não é o primeiro, mas um dos primeiros, e que considero muito relevante: o foco é o jeans, com Julie Kovarick, uma modelo inacreditável da época, fotografada pelo J.R. Duran. No livro os capítulos são cronológicos, abordando as décadas, mas as fotos não estão ordenadas ano a ano dentro do período, por uma questão de resultado de efeito de edição de imagem.

Além das imagens de moda, esses 30 anos de carreira devem ter produzido muitas histórias de bastidores. Me conta alguma que tenha te marcado?
Há várias histórias, uma mais interessante que a outra. Destaco essa pela pessoa envolvida. Luiza Brunet na Amazônia, uma tribo indígena, fomos todos com uma lancha negociar as fotos na tribo para editorial da “Vogue Brasil”.  O lugar das fotos ficava a oito horas de viagem de Parintins, por isso estávamos dormindo num barco gaiola, que tinha banheiro, cabines, etc. Pegamos essa lancha porque assim o percurso seria feito mais rápido, em duas horas, e aí retornaríamos para dormir no barco, no meio do rio. Na volta, o guia índio se perdeu, acabou a gasolina, tivemos que passar a noite ao relento. A temperatura na floresta durante o dia é de 40 graus, então estava todo mundo de biquíni e roupa de banho. À noite cai para 12 graus, então imagine a nossa situação e a da Luiza!

Você começou a trabalhar numa época em que as revistas eram o principal meio de comunicação para a moda, e continuaram protagonistas durante mais duas décadas da sua carreira. Nos últimos dez anos, com a popularização da internet surgiram sites relevantes de moda, transmissões ao vivo de desfiles, versões online de revistas. Qual é o papel das revistas de moda impressas hoje, neste cenário?
Continuo acreditando que é o mesmo. Quem tem marca e qualidade vai sobreviver. Quem entrar na vibe imediatista do digital vai morrer. É preciso ter profissionais com bagagem e conteúdo para manter a revista viva. A questão é quem está por trás: a curadoria é que vai me dizer se é bom. Esse é o denominador comum do que vai derrubar tanto revista impressa quanto conteúdo online. Também acredito que vai vir uma geração depois dessa, que já cresceu na era digital, que não vai saber o que é revista de moda, vai ter curiosidade de conhecer e talvez a ressuscite. Com papel feito de folha de cana, de uma maneira sustentável.

O que era mais fácil no seu trabalho antes e o que é mais fácil hoje?
Hoje se você realmente tem dinheiro, toda a estrutura é mais fácil. Se você não tem dinheiro, fica um pouco mais difícil do que antes. Porque antigamente tudo era menos especializado, a moda no Brasil estava começando, havia menos profissionais, você acabava fazendo de tudo: produzia, carregava a van, muitas vezes fazia produção de moda a pé, sem carro. Todo mundo acabava se ajudando. Sei passar roupa com ferro, por exemplo, algo que meu assistente hoje não sabe fazer.  Hoje tem camareira, produtor, motorista. Mas quem é “old school” consegue fazer tudo, se precisar.

Qual é a influência do Instagram no trabalho criativo hoje, na sua opinião?
Comecei a usar Instagram bem cedo, logo que apareceu. Era um pouco mais interessante, porque tinha menos gente. Depois, muitas pessoas entraram e não entenderam que é uma ferramenta de fotografia que por acaso tem espaço para o comentário. Começaram a escrever verdadeiros TCCs embaixo das imagens. Mas continuo olhando as pessoas interessantes que já seguia. Sigo muitos fotógrafos (@juergentellerpage, @nick_knight, @therealpeterlindbergh). Às  vezes posso tirar toda uma história de moda de uma foto que vi no Instagram, ou a cartela de cores, uma única cor, o estilo de fotografia. É uma fonte de pesquisa como o Google, mas já foi mais forte, está virando quase um Facebook e acredito que a tendência seja mudar. Como o Pinterest, que antes era ótimo e agora virou um grande WGSN de todo mundo. Fica menos exclusivo.

Como você avalia o novo timing da moda e como adequou o seu trabalho a essa atual velocidade?
Se realmente os desfiles de moda se voltarem para o varejo, acho que no final vai ser muito bom. O digital vai ter menos acesso, as coisas vão ficar mais inesperadas, a possibilidade da cópia vai ser menor, e obrigatoriamente a moda vai ser mais autoral. Sobre o meu ritmo de trabalho, mantenho o mesmo padrão e a  mesma qualidade de pensamento na velocidade de hoje. Não eliminei etapas do processo criativo, mas tenho que ser mais ágil e rápido. Você tem que se adaptar, ao invés de trabalhar 8 horas, trabalha 12, tem que ter uma rede de assistentes maior, porque vai ter que passar para mais pessoas pesquisarem o que você pesquisaria sozinho, não vai dar tempo de apenas uma pessoa pesquisar.

De que maneira você faz suas pesquisas de moda?
Tento não me influenciar pela pesquisa digital. Graças a Deus sou de uma geração que se aprofundou em tudo. O Google te dá as coisas superficialmente, te mostra, por exemplo, algumas imagens da Commes des Garçons fora de contexto. Não dá para se basear só nisso. Minha principal ferramenta é a memória. Depois, a memória. E aí vem a conexão de uma exposição que você  foi com outra coisa, com trabalho que você arquivou, revista antiga que você tem. Tenho muita coisa antiga que guardei, não muito, mas o suficiente. Na verdade tem que colocar o cérebro para pensar e fazer links.

Quais são os profissionais inesquecíveis com quem trabalhou?
Gisele, óbvio, e várias modelos. As modelos brasileiras são excepcionais. Mario Testino, Patrick Dermachelier, (a hairstylist) Odile Gibert, (a maquiadora) Pat McGrath são todos profissionais marcantes de se trabalhar.

Sua relação com os fotógrafos mudou ao longo da sua carreira?
Fiz e faço parcerias com muita gente boa, não tem como não falar de Miro, J.R. Duran, Gui Paganini, Jacques Dequeker, César Cury. A relação é mais ou menos a mesma. O que mudou é que hoje tenho 53 anos, então para eles me convencerem de que algo é bom, tem que ter um argumento muito forte.

O que mudou no papel do stylist de antes e de hoje?
Meu conceito de stylist é um pouco diferente do de todo mundo. Nem todo stylist pode ser editor, mas um editor pode ser stylist. O stylist é muito mais um produtor que edita a imagem com o estilo próprio dele, e impõe um estilo pessoal. E o editor faz um trabalho mais abrangente, não impõe o seu estilo, mas o estilo da tendência em vigor. Essa coisa do stylist veio de fora [o termo em inglês, que substituiu o trabalho que no Brasil era chamado de produtor de moda] e ficou. O nome mudou mas não mudou muita coisa. Uma mudança importante é que antes os stylists aprendiam com alguém antes de seguir carreira solo, agora tem um monte de stylist autoral, que já inicia a carreira sem ter sido assistente antes,  e o conteúdo é muito fraco.


Fonte: FFW

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